<i>Fazeria-se</i>melhor...

Nuno Gomes dos Santos

Prudentemente calado durante as últimas semanas, que os tempos não eram para palpites, antes para expectativas e fundadas esperanças, dei-me mais à leitura de jornais e telejornais, que também se lêem vendo-os, ampliando essa leitura televisiva com outros programas, informativos, dedicados a temas vários, desde a política ao desporto. E reforcei a ideia que tinha e que, infelizmente, por estar mais atento, confirmei: o português, a nossa língua, é impunemente desrespeitado sem que qualquer responsável se digne pôr termo a esse desrespeito, a esse linguajar sem tino, a esse virar as costas às mais elementares regras de escrita minimamente escorreita ou, como aprendi com o maginífico Carlos Pinhão quando dava aulas de jornalismo, usando a lei dos três cês, ou seja, ser, essa linguagem informativa, clara, correcta e concisa.

Pois não escasseiam exemplos de não ser clara. Que falta fazem os revisores sérios, que nunca deixariam passar a frase «a Rússia está disposta a criar sanções à Rússia» (no diferendo com a Turquia). Não faltam exemplos de não ser correcta: «nesta prova (de ciclismo) fazeria-se melhor» (num comentário televisivo). Não faltam amostras de falta de concisão: «o score elevado mostra que a diferença de pontos entre os dois adversários ambos em disputa é muita».

Um conhecido pivot de um canal de televisão, escritor(?) assumido e com vendas maiores diz que «isto tem a haver com»; uma notícia de jornal começa o terceiro parágrafo com «mas vamos ao lead» que, como quem informa muito bem sabe, ou deveria saber, é o início sintético de uma informação; um comentarista desportivo reclama que certo acontecimento «está a se fazer».

Nas redações de jornais, que nos chegam em papel ou via rádio ou televisão, ninguém parece ligar nada a isto. A regra, ao que parece, é: as pessoas perceberam, não perceberam? Então que se lixe! E o português desce à sub-cave onde se cultivam prosas bárbaras e discursos presidenciais.

Sair em defesa da nossa língua é uma prioridade, não uma censura, t'arrenego! Ler Baptista-Bastos é um prazer, mesmo para quem, que não eu!, discorde das ideias que expressa, apenas porque é português de primeira água. Ao contrário do que se lê em títulos de jornais responsáveis (às vezes...): «A maioria dos portugueses disseram»...

Antes de se ter direito a escrever ou a falar publicamente, deve ter-se o dever de aprender a falar e a escrever na língua que se assume e que, no caso vertente, é o português. Sob pena de, mais dia menos dia, lermos notícias estilo telemóvel (kero dizer k dp de ir ao cinema tb vou ter k ir...).

Não é, isto que escrevo, um apelo à censura nem uma proposta de pôr na rua profissionais da comunicação. Mas é, forçosamente, uma chamada de atenção sobre a exigência do respeito pela dignidade da nossa língua. Se sabem do que falam ou escrevem, façam-no correctamente. Pode, para isso, haver formação. Não sendo nunca tarde para aprender, talvez não seja despiciendo pensar a sério nesta questão como sendo um problema de educação e de cultura. E há ministérios recentemente criados que se podem debruçar sobre isto. Para que se faça justiça em relação ao uso da nossa língua.

Fazer-se-há?




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